Thursday, October 19, 2006

Carta ao professor Deonísio da Silva

Por Augusto Geraldo Teizen Júnior

Demorei muitos anos para descobrir minha verdadeira vocação.

Toda vez que me deparo com uma injustiça tomo logo as dores do ofendido. Sempre gostei de “comprar” brigas, apesar de ser pacífico, comparando-me ao Bush. Venho defender aquele aluno, o “ignorante aluno” que ousou opinar contra a “excessiva importância a Machado de Assis”.

Ao “verme que primeiro ‘roerá’ as frias carnes do meu cadáver dedico ‘esta defesa’”.

Na constituição brasileira em seu art. 206 consta: O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I – (...) omissis; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; também prevê o art. 5º, inciso IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato e no inciso IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.

Assim em nome do “ignorante aluno” apresento aqui a defesa.

Simão Bacamarte (O Alienista) em sua tentativa de estabelecer os limites entre a razão e a loucura, sendo médico, interna, numa primeira etapa, todos os que manifestavam hábitos ou atitude que, embora discutíveis, são tolerados pela sociedade: os politicamente volúveis, os sem opinião própria, os mentirosos, os que vivem fazendo discursos ou versos empolados, os vaidosos.

Lembra-me, professor, daquela Teoria do Medalhão, não se ofenda;

“ falemos como dois amigos sérios; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. A vida, professor, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.

Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje.

Conselho nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinqüenta anos, conquanto alguns exemplos se dêem entre os cinqüenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio.

Digo-te isso pois, sinto que o “ignorante aluno” se sentiu como “A BORBOLETA PRETA”.

A borboleta, que depois de esvoaçar muito em torno de mim, pouso-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinha da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

- Também, por que diabo não era ela azul? Disse comigo.

E esta reflexão, - uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali afora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: "Este é provavelmente o inventor das borboletas". A idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, o que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas... Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.

Concluo rindo. Ao professor Deonísio, as batatas!